quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A espetacularização do “Eu” na internet: A tênue linha entre o público e o privado

Foto reprodução: Revista IstoÉ, 2013 nº 2300

Todos os dias me deparo com fotos e informações, que já se tornaram típicas, na minha timeline do Facebook: amigas na academia (sendo que a foto tem que ser postada sempre com uma frase de autoajuda ou motivação), check-ins em bares, cinemas, restaurantes, fotos em lugares paradisíacos. Peguei-me pensando: De onde vem essa necessidade constante que as pessoas têm de tornar pública a sua vida? Qual é o sentido de mostrar para o mundo a maneira que estão vivendo?
Essa necessidade de se mostrar, nada mais é, que um anseio ao reconhecimento ou, até mesmo, um alimento para o ego. A ensaísta e pesquisadora argentina,
Paula Sibilia, procura em seu livro O show do eu: A intimidade como espetáculo (2008), entender o porquê da crescente espetacularização dos indivíduos, revelando as suas intimidades tantos para conhecidos quanto para anônimos na internet, seja em textos, vídeos e/ou fotografias.
O livro é fruto da tese de doutorado da autora e discute sobre o “eu” sob diversas vertentes, como o eu narrador, o eu privado, o eu visível, o eu atual, o eu autor, o eu real, o eu personagem e o eu espetacular. Com o advento da internet e maior acesso às redes sociais, a possibilidade de embrenharmos virtualmente na vida das pessoas tornou-se algo rotineiro. Expor sentimentos, registrar ações, emoções, pensamentos e opiniões tornou-se algo totalmente comum na sociedade contemporânea.
Em sua pesquisa, Paula listou vários exemplos como os indivíduos encontram para se mostrar, seja em diários íntimos, como blogs ou no Second Life, seja através de webcams que transmitem continuamente a rotina de pessoas comuns, fotografias tornadas públicas de situações privadas, ou vídeos gravados que estão a todo momento sendo disponibilizados nas redes sociais. A autora afirma que toda essa espetacularização acabou por levar a transformações da subjetividade contemporânea e gerar discussões sobre questões como a visibilidade e a privacidade são percebidas na e pela internet. O limite entre público e privado se tornou uma linha tênue. Informações privadas podem acabar por se tornar públicas a qualquer momento, já que a internet possibilitou a criação de uma cultura de observação do outro e exposição de si mesmo.
Guy Debord (1997), em sua obra A sociedade do espetáculo cunhou a expressão “espetacularização do eu”, ao apontar que no século XX se iniciava um período de super exposição dos seres humanos: suas histórias e suas vivências. Com o advento da internet, essa espetacularização ganha contornos mais nítidos. Ao mesmo tempo, a internet se tornou um buraco negro, afinal, quando alguma coisa viraliza, é praticamente impossível deter o fluxo das informações. Com isso, deve-se repensar a privacidade nesses meios. Com quem compartilhar informações sobre si? E além disso, o  que as outras pessoas poderão fazer ao ter posse dessas informações? Essa é a grande questão do uso das redes sociais na atualidade.

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