sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Uma andorinha só não faz verão

Escrito por: Hermes C. Fernandes
Foto reprodução: Facebook

Finalmente, a tão esperada estação. E naquele ano, ela veio com tudo, elevando as temperaturas além do esperado. Devo confessar que sou um carioca atípico. Prefiro dias nublados. Temperaturas amenas. E se tiver que escolher entre praia e montanha, já pode imaginar qual será minha opção.

Naquele verão, fomos surpreendidos com a chegada de um casal de andorinhas em nossa casa, que aproveitou a tubulação inativa de gás para improvisar seu ninho.

Certa manhã, uma brisa fresca soprava pela janela da cozinha do nosso apartamento que ficava no segundo andar de um edifício de classe média numa pacata rua de paralelepípedos da zona oeste carioca. Pus-me em frente à janela para aproveitar o frescor. Quando o vento começou a se intensificar, decidi fechá-la. Foi então que percebi um casal de andorinhas que se refugiava na tubulação inativa de gás de nossa área de serviço. Discreto, fiquei à espreita e observei que cada vez que saíam e voltavam, traziam alguma coisa no bico, pelo que, conclui que estavam a construir um ninho.

Numa madrugada calorenta em que nem o ar-condicionado estava dando vasão, fui à cozinha beber água e pude ouvir o barulho que vinha da tubulação, indicando que os filhotes haviam nascido. Não resisti e saí acordando meus familiares para contar-lhes as boas novas, mas longe de demonstrarem a mesma euforia, um a um se aborreceu por ter interrompido seu sono por algo que consideravam tão banal.

Não muito tempo depois, algo inusitado aconteceu. Pela minha conta, foram três os filhotes que nasceram. Um deles caiu do ninho, mas graças ao parapeito da janela de nossa área de serviço, não se esborrachou lá embaixo. Ele já estava bem crescidinho, com as penas trocadas, porém, ainda não desenvolvera a habilidade necessária para voar. Os pais ficaram visivelmente desesperados. Passavam o dia inteiro adejando o filhote. Às vezes, um deles pousava ao seu lado, dando a impressão de que lhe dava um sermão por haver deixado o ninho prematuramente.

Tive pena da pequena andorinha. Não conseguia retornar ao ninho, nem tampouco abrir as asas e voar.

Resolvi dar uma mãozinha à família. Mas toda vez que tentava pegar o filhote para devolvê-lo ao ninho, sua mãe vinha furiosa em minha direção. Por respeito, preferia retroceder.

Confesso que me vi refletido naquele filhote destrambelhado.
Como eu poderia ajudá-lo?

Percebi que no parapeito do primeiro andar havia marcas estranhas. Peguei minha câmera e dei um zoom para tentar discernir do que se tratava. Eram restos mortais de outras andorinhas que provavelmente caíram da mesma tubulação devido à sua discreta inclinação. Conclui que não era a primeira vez que andorinhas faziam seu ninho ali, e que, possivelmente, aquelas andorinhas que agora elegeram nossa tubulação de gás como lar eram sobreviventes de ninhadas anteriores. Bastou uma pesquisa rápida no google para saber que as andorinhas sempre voltam para o seu lugar de origem para ali fazerem seus ninhos.
Será que aquele filhote teria o mesmo destino? Eu estava disposto a impedir que isso acontecesse, mas não sabia como evitar.

Seus pais tentavam estimulá-lo a abrir suas asas e voar. Era mais fácil projetar-se para fora do que tentar um voo vertical e retornar ao ninho. Todas as tentativas foram frustradas.

Num dado momento, aproveitei a ausência da mãe que provavelmente saíra em busca de mais comida e consegui capturar o filhote. Desespero total! Ao entrar em nossa casa, o filhote escapou da minha mão e se escondeu debaixo da máquina de lavar. Tive que recorrer a um cabo de vassoura para tirá-lo de lá, manuseando-o com cuidado para não machucá-lo.

Quando, finalmente, fui devolvê-lo ao ninho, colocando-o na boca da tubulação, ele simplesmente abriu as asas e saiu voando em disparado. Imediatamente, apareceu sua mãe que saiu voando atrás dele. Pouco tempo depois, ela voltou sozinha. Nunca mais aquele filhote voltará ao ninho, a não ser para reproduzir. E assim, o ciclo da vida se perpetua.

Foto reprodução: Arquivo


Hermes C. Fernandes, 46 anos, 
mora na cidade 
do Rio de Janeiro - RJ 

Nenhum comentário:

Postar um comentário