sábado, 10 de setembro de 2016

Spray, Gás e Repressão

Escrito por: Camilla Araújo
Foto reprodução: Facebook

Meu primeiro spray de pimenta e bomba de gás lacrimogêneo na cara.

Eu decidi escrever esse relato aqui no Facebook, porque eu acho extremamente importante que vocês tenham acesso a o que anda acontecendo aqui em SP. Realmente nunca achei que fosse passar por isso na vida, mas eis o que rolou:

Hoje eu estava no bar, de boa, comendo uma empanada acompanhada de uma Serramalte, e eis que escuto umas bombas, e vejo uns jovens correndo do lado de fora, pela janela de vidro do lugar onde eu estava. Pela movimentação, alguns clientes foram pra porta do estabelecimento (a maioria do lado de dentro mesmo), e uns garçons se prontificaram pra fechar as portas de enrolar. Nisso, jogaram uma bomba de gás lacrimogêneo na porta do bar (tipo dentro). E como as janelas de vidro já haviam sido fechadas, assim como a porta de enrolar (por causa das bombas da rua), o efeito da bomba começou rapidamente. Todo mundo começou a ficar desesperado, porque o efeito é forte como dizem, especialmente num lugar abafado. Ficar chorando desesperadamente na rua, como já vi nos vídeos aqui pelo Facebook, é uma coisa. Outra coisa é você sentir o efeito disso quando não se tem pra onde ir, e não tem por onde o ar circular.

Após o desespero começar, a falta de ar, e os demais efeitos da bomba, algumas pessoas desesperadas vão na porta questionar a covardia de fazer isso contra pessoas do/no estabelecimento, quando nenhuma SEQUER tinha algo a ver com o que tava rolando lá fora. Nisso, algumas pessoas começaram a filmar (guardem essa informação). Uma mulher acabou se exaltando mais, talvez pela bebida mesmo, e começou a xingar os policiais de covardes, enfim. Eis que entram no bar, e começam a arrancar ela pelos braços, batendo com cassetete, enquanto jogam spray de pimenta na cara de TODO MUNDO QUE ESTÁ EM VOLTA, OLHANDO. NINGUÉM CHEGOU PERTO OU ENCOSTOU. E OS QUE ESTAVAM PERTO, ACABARAM APANHANDO TAMBÉM. APENAS PERTO. O marido dela, e uns amigos, que estavam tentando puxar ela de volta, nem vi o que rolou com eles, porque nessa hora eu já não estava enxergando direito. Como eu estava perto, mas não perto o suficiente, só levei spray na cara mesmo. De graça. E encurralada. E aí somatizem o efeito do gás, do spray, do espaço pequeno e fechado, e do fato da única saída ser a que está cheio de covardes, sorrindo (!!!!! essa foi a parte mais assustadora da situação), e você não ter pra onde ir. Aí os garçons se prontificam pra distribuir vinagres, enquanto as meninas (assim como eu), correm pro banheiro minúsculo e sem saída de ar, pra vomitar ou algo assim, porque tava todo mundo desesperado e passando mal mesmo.

"Beleza". Eles levam mais umas duas pessoas presas. E saem. E aí o pessoal começou a sair, pra tomar um ar, porque tava impossível ficar, e achamos que eles não voltariam. Quando saímos, voltam uns policiais, entram de novo e pegam mais uma mulher presa, porque ela estava filmando (sim, esse foi o argumento usado por eles, porque eu escutei). E quando questionados sobre alguém ser preso por FILMAR uma situação, um escroto fardado responde que ela testemunhou, então ia ser levada presa, sim - na hora, pensei: Ué, mas todo mundo é testemunha aqui, não?????

Gostaria de repetir que, enquanto faziam isso, eu observava um ou outro policial rindo. E, covardemente, uma ainda soltou: "Cadê os bravões agora????".

Não é exagero quando citam ditadura, galera. Acordem!!!!!!!!!!!! Isso é porque foi na Vila Madalena, num bar arrumadinho, em que ninguém fez nada. Imaginem o que acontece sem que nós saibamos!


Camilla Araújo

Nenhum comentário:

Postar um comentário