quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Diretas já? Já passei por essa fase

Escrito por: Maurício Campos dos Santos

Foto reprodução: Facebook

Mas foi há mais de 30 anos atrás. Na época, estudava na PUC/RJ (4 º ano de engenharia) e participei ativamente da campanha das Diretas, através das organizações de base que surgiram (os CPDs, comitês pró diretas, que acabaram sendo algo mais amplo e organizando lutas diversas em comunidades, escolas, universidades, etc.). Na foto, tem aquela faixa enorme, DIRETAS JÁ/PUC, que ajudei a pintar, mas no dia (o lendário dia da manifestação de 1 milhão de pessoas na Pres. Vargas, em abril de 1984) eu estava segurando mesmo outra faixa, meio azulada, que não se vê muito bem na foto, mas está adiante da grande e trazia o lema O POVO QUER VOTAR, ABAIXO A DITADURA MILITAR. Sim, era verdade, ainda vivíamos sob regime militar, embora já bem enfraquecido pelas mobilizações populares que vinham crescendo desde 1978/79. Já era militante radical na época, não acreditava em revolução pelo voto, mas diante do regime dos generais exigir diretas já, ou seja, atropelar a tal transição lenta e gradual que os militares propunham, era realmente subversivo. Tanto que o governo do Figueiredo baixou estado de sítio no dia da votação da emenda das Diretas no congresso, houve muita prisão e porrada, e a emenda foi rejeitada.

Eu, ingênuo militante de 21 anos na época, não era tão ingênuo para achar que a emenda passaria naquele congresso reacionário, mas pensava que, diante da rejeição, o povo se revoltaria e haveria grandes levantes por todo o país. Nada disso, o povo chorou, chorou, e ficou por isso mesmo. Os partidos se rearranjaram, Tancredo Neves foi eleito no colégio eleitoral, mas quem assumiu mesmo foi o Sarney. Já deveria ter concluído, por aquela experiência, que essas bandeiras que jogam tudo no processo eleitoral são como profecias auto-realizáveis, podem ser conquistadas ou não, mas acabam conduzindo toda a luta popular para o valão estagnado da disputa institucional.

Felizmente, a revolta e a combatividade do povo e seus movimentos na época era muito grande, e um a um os planos de ajuste do Sarney foram inviabilizados. Entre 1984 e 1989 houveram lutas épicas, incluindo uma greve geral de base, organizados por comitês de greve enraizados nos locais de trabalho e nos bairros, em parte inspirados na experiência dos CPDs, que deixaram muito acuada a classe dominante branca burguesa. E, graças a essas lutas, que tiveram seus mártires e heróis (como os operários assassinados pelo Exército em Volta Redonda, entre muitos outros), foi aprovada uma Constituição consideravelmente progressista em 1988, apesar da composição reacionária do Congresso Constituinte, onde a bancada do PT, por exemplo, era quase desprezível. Não foi o voto e a eleição, mas a luta direta que garantiu a maioria dos (ainda muito frágeis) direitos que temos hoje, conquistados nesse período, e em parte também nos anos de resistência aos governos Collor, Itamar e FHC, mas então o quadro da organização da luta popular já era outra…

Em 1989 finalmente aconteceram as diretas para presidente, Lula foi candidato e através de sua campanha, grande parte espontânea e não controlada pela máquina do PT (muito incipiente ainda), houve a oportunidade de uma contraposição de imaginários políticos e sociais inédita até então. Tratava-se de propor a eleição de um cara do povo, nordestino, numa política desde sempre dominada por elites letradas e canalhas. Havia os bordões de campanha oficiais, “sem medo de ser feliz” e tal, mas havia a agitação de base que fazíamos nas periferias, era eleger o “peão barbudo” contra os almofadinhas da política, cujo símbolo maior era o playboy do Collor. Era, pelo menos simbolicamente, muito subversivo.

Mas então o inesperado aconteceu, Lula passou para o segundo turno, as alianças se refizeram atabalhoadamente, o PT começou a fazer concessões, mas o ímpeto da campanha de base era tal que nem ligávamos muito para isso, era um certo êxtase ver que nosso discurso brutalmente subversivo pudesse ser feito tão abertamente, e era escutado! Lembro de um comício do Lula em São Gonçalo onde ele falou que ali não tinha só eleitores, e sim combatentes revolucionários (claro que ele, já malandro político, não falava essas coisas para plateias de classe média), e foi um júbilo na multidão.

Mas, Lula perdeu, e o povo chorou, chorou, novamente. Só que o gostinho da vitória eleitoral ficou no paladar da esquerda partidária, e a partir daí tudo, com poucas e honrosas exceções (o MST nos seus tempos áureos, por exemplo), era conduzido nos movimentos populares tendo em vista as próximas eleições. A viabilidade eleitoral do PT cresceu na mesma proporção da burocratização e perda de combatividade da grande maioria dos movimentos. A última greve geral digna desse nome aconteceu no Brasil em 1991, mas já foi bem mais fraca que a de 1989, e com muito menos organização autônoma de base. Apesar de tudo, ainda tínhamos alguma força, e boa parte das medidas neoliberais de Collor e FHC não puderam ser implementadas totalmente. O programa de privatizações, por exemplo, só pode ser completado depois… por Lula e Dilma. O MST organizava ocupações nesse período e conseguiu conquistar mais assentamentos na era FHC do que… sob Lula e Dilma.

Qualquer inventário de conquistas mais estruturais realizadas pela luta popular, que são muito poucas, é verdade, mostrará que a maioria foi obtida ANTES do primeiro governo Lula. Não havia muita “esquerda no poder”, mas havia luta e organização popular, ainda que cada vez mais detonada pela estratégia eleitoral da maioria da esquerda. Mesmo políticas que vieram a ser implementadas em maior escala na era Lula, e que podem ser consideradas estruturais, como as cotas sociais e raciais nas universidades, já vinham sendo elaboradas e em parte conquistadas antes pelos movimentos. Pouca coisa devemos a eleições, mas muita coisa devemos às lutas diretas.

Por outro lado, o empenho das esquerdas na administração do Estado cortou absolutamente a possibilidade de ajustarmos contas com o aparelho policial militar terrorista do mesmo. Não só nenhum torturador e assassino da ditadura de 64 foi a julgamento por anos, até recentemente, mas assistimos, depois de 1989, ao início da tenebrosa Era das Chacinas no Brasil, que ainda continua. Enquanto os cadáveres de Acari, Vigário Geral, Candelária, Nova Brasília, Carandiru, Corumbiara, Eldorado dos Carajás, entre muitos outros, iam se acumulando, a esquerda ia se tornando “respeitável” o suficiente para gerir inclusive essa máquina de morte. Os efetivos policiais do Brasil expandiram-se como nunca durante a era Lula e Dilma. A PM, longe de ser desmilitarizada, fortaleceu-se.

A última eleição da qual participei, embora fazendo uma campanha muito tímida, foi em 1990, nem me lembro direito em quem votei (mas não foi no Brizola) (Risos). Nem mesmo as eleições municipais do Rio em 1992, que tiveram uma carga simbólica épica parecida com a presidencial de 1989 (Benedita da Silva, negra, mulher e favelada, foi candidata a prefeita), me fizeram mudar de opinião. Benedita, como se sabe, elegeu-se vice-governadora de Garotinho em 98, e acabou governando o Estado por alguns meses, uma passagem tão impopular que, quando perdeu as eleições de 2002 para Rosinha Garotinho, teve mais votos nas classes A e B. Os pobres que votaram em massa em Lula, e lhe deram o primeiro mandato presidencial, aqui no Rio preferiram a mocinha branca evangélica à negra favelada (que já havia deixado de ser favelada há tempos, claro, mas continuava presbiteriana, uma ramo protestante relativamente progressista por aqui). Foi como um fim de uma era na simbologia eleitoral do Brasil.

Quando vejo jovens de hoje confiantes na bandeira de Diretas Já, como forma de impedir o retrocesso anunciado no governo Temer, eu entendo, de certa forma. Afinal, não viveram e pouco conhecem toda essa história. Mas quando vejo gente que sabe disso tudo, viu isso tudo, e sabe somar dois com dois, só posso ficar abismado. Sim, temos que resistir a medidas anti-populares perversas que estão sendo tramadas. Mas já soubemos fazer isso no passado sem eleições, e na verdade as eleições sempre atrapalharam nossa capacidade de resistir. Basta redescobrirmos nossa força, a força de nossa organização de base e nossa combatividade. E não cairmos no canto de sereia de quem vive, respira e se alimenta de eleições. Pois deles já experimentamos o suficiente.

Foto reprodução: Facebook 

Maurício Campos dos Santos, 53 anos, 
mora em Niterói - RJ 
e trabalha como Engenheiro

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