domingo, 21 de agosto de 2016

Crônicas: Não é pra ficar com pena


Crônica de Joseane Teixeira

Foto reprodução: Cedida pela autora do texto

Esse texto fala de polícia, de jornalismo e de meninos negros. E o título é NÃO É PRA FICAR COM PENA.

Talvez você, homem branco, andando de madrugada na rua, trocaria de calçada com medo do menino de cabelo black e tênis surrado. O nome dele é Pedro, morador do Parque da Cidadania. E aquela perna ao fundo é do irmão dele, menor, apreendido na delegacia.
Eu trabalhava na leitura dos boletins de ocorrência quando percebi que Pedro olhava pra mim. Quando o encarei, ele baixou a cabeça e sorriu.
Pedro veio de Recife com o pai e o irmão mais novo, mas o pai morreu e sobraram os dois, um pelo outro. Ou melhor, Pedro por Gean. É o menino de cabelo black quem paga o aluguel da casa que é tão judiada que um bandido entrou e não levou nada.
Enquanto o caçula era preso, o irmão segurava o uniforme no peito, trabalhava cortando salmão.

O tenente Danilo que apresentou a ocorrência, disse que teve que buscar Pedro no trabalho para acompanhar o irmão. Explicou, emocionado, que o menino de cabelo black e tênis surrado veio de Recife, onde trabalhou em restaurante francês. O menino de tênis surrado fala inglês.
"Ele tremeu quando viu a polícia, Josi. Me partiu o coração"

Mas Tenente calejado viu que algo pode dar certo quando tudo dá errado. Pelo whatsapp, perguntou se um amigo, dono de restaurante, poderia oferecer a Pedro uma oportunidade importante.
Eu sugeri postar pra ajudar. Mas a gente subestimou a grandeza do Pedro.
Perguntei se ele precisava de ajuda, respondeu que não. 'O aluguel está atrasado, mas eu acredito no meu emprego' - mencionando que coleciona promoção.
Sobre Gean, que não vai desistir do irmão.

Amigos, eu segurei pra não chorar.

Após abraçar o Pedro, me abaixei pra falar com Gean, que estava algemado. Peço que não o culpem, mas que o entendam, porque ser negro, viver a margem da sociedade e mesmo assim ser um Pedro na vida, é um milagre. Dividi com Gean algumas coisas que enfrentei e o que aprendi com elas. Disse que o entendia, porque enquanto o irmão trabalha, ele ganha o dobro de boa na viela.Mas que nada é mais importante que a família, que o orgulho de andar de cabeça erguida e que a nossa paz dinheiro nenhum compra. Apertei forte sua mão, porque a algema me impediu de abraçá-lo, mas o ferro que lhe prendia não me impediu de te olhar.
- Se o juiz te liberar, aproveita a oportunidade. Mas se for pra Fundação Casa, leva como aprendizado, valoriza tua liberdade. Nada é por acaso. Eu vou querer saber de você pelo teu irmão. Olha pro Pedro. Ele te ama, é ele que está aqui segurando o refrão.

Eu falei que esse texto chama NÃO É PRA FICAR COM PENA, porque ele fala de Pedro, um HOMEM de black e tênis surrado que fez dessa repórter uma pessoa pequena.
Quanto ao Gean, torçam por ele amigos, porque ele já conhece o ódio, o desprezo e o rancor. Se há algo que possa salvá-lo do crime, esse algo se chama amor.



Joseane Teixeira, 28, é repórter e reside atualmente na cidade de S.J Rio Preto, SP.

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