sábado, 1 de agosto de 2015

A velha novela dos bobos

Texto: Walace Cestari
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Foto Reprodução: Google/Tranversos

Eduardo Cunha não é o maior vilão do Brasil. Tampouco se aproxima de herói. Nem mesmo Dilma pode ocupar quaisquer desses espaços sem uma boa dose de má intenção para qualquer interpretação. O cenário político brasileiro atual é composto por tantas marionetes, por tantos títeres que não sabemos quem manipulas os condões e interesses de um enredo tão mal escrito.
A canalhice toma conta das páginas de jornal que vendem uma esquizofrenia ideológica à população. A Operação Lava Jato vem sendo o grande sucesso da imprensa há vários meses, com suas fases sucedendo-se como capítulos de uma novela empolgante e emocionante.
Vilões são necessários a uma boa trama rocambolesca. Petralhas! Bradará a audiência. Denúncias de corrupção escorrem pelas linhas dos periódicos a uma velocidade impressionante. E vão fazendo vítimas. Deputado citado. Senador envolvido. Ex-ministro denunciado. O Juiz Moro é o xerife que vai limpar a cidade. O país. O arauto de nosso combate contra a corrupção.
Denunciados se entreolham e as câmeras agem com pistolas que lhes ameaçam qualquer direito possível à defesa. A opinião pública já lhes condenou. Corruptos! Queremos o sangue dos políticos. Contradenúncias! O delator é um indivíduo sem moral para fazer acusações aos outros. Seguem-se falácias que aumentam a audiência e o bafafá dos capítulos.
De repente uma leva de empresários visita a cadeia. Suspense. A história ganha ares de dramaticidade. E então, articuladamente, alguém faz a revelação que serve de chamada ao enredo inteiro: “se eu contar tudo o que sei, não sobrará ninguém em Brasília”.
A claque se deleita. Revistas estampam ilações como verdades, insinuam-se ligações entre o governo, o fulano, o PT, o paraíso fiscal e qualquer outra coisa que equivalha. E tome imagem, perseguição aos condenados, ops, acusados, machetes, reportagens. Ah, que delícia de Ibope.
As outras operações que fujam do enredo são deixadas de lado. Não merecem o horário nobre. Vamos fazer sangrar a presidência, vamos vilanizar o PT. A delação premiada deveria consistir em infratores de menor grau denunciarem aqueles de maior importância no esquema, mas torna-se aqui outras vontades: é o grande corruptor, preso, que recebe vantagem se acusar algum político.
E, como em um erro de gravação, como em um furo do roteiro, o endeusado presidente da Câmara dos deputados, alçado a protagonista da luta contra o PT – apoiado midiaticamente por um sem número de maus roteiristas de imprensa tupiniquim – cai na mesma armadilha criada para pegar as moscas do Governo Federal.
Daí, o discurso fica louco. Chegou-se a falar que Lava-Jato havia sido orquestrada pelo Governo Federal para pegar Eduardo Cunha! Impressionante como subiu à cabeça do rapaz o pseudoprotagonismo que a mídia lhe deu.
Por outro lado, em um contra-ataque tão louco quanto cômico, a turma do PT passa dar crédito ao até então desacreditado delator. Ou simplesmente perceberam que dá para não cair sozinhos e fazer um bom estrago consigo.
A revista de ficção semanal tenta ainda salvar seu herói de momento, mas Cunha é indefensável. Não por suas acusações, essas são tão sérias e graves quanto todas as outras, ainda que possam repercutir menos, mas pelo papel de bufão que sobrou ao presidente da Câmara: um demagogo de ocasião que trazia consigo a mídia para apoiar causas “populares”, como na questão da maioridade penal; e outras bem particulares – contra as mesmas pesquisas de opinião – como no financiamento privado de campanha, necessário à manutenção dos cordões que lhe dão a vida no Congresso.
De forma atrasada, águas de março vão fechando um verão de acusações. Collor e seus automóveis, Cunha e suas doações, o PT e seus esquemas. Uma novela mal-feita, sem heróis e repleta de vítimas: o contribuinte, a população e a imbecilidade dos que acusam apenas um lado de corrupção. Ratos de partidos de “oposição” se escondem e torcem para que não haja divulgação nem de outras operações – encabeçadas por eles –, nem de outros depoimentos – vai que… –, ou sobre relações com governos anteriores – cruzes, nem pensar!
É o fundo do poço, é o fim do caminho. O bobo da corte está nu. Mas estava crente (com trocadilho, por favor) que seria ele a fazer isso com o rei. Não faz. Esbraveja como se fosse o protagonista. Não passa de um coadjuvante ocasional que ganhou algumas falas a mais.
Eis uma história onde só há vilões. Magos em sumir com dinheiro público. E um bando de trouxas que acredita apenas em partes de fatos. De coração fechado. Prego, pé, estepe. Águas imundas que inundam.
É a lama, é a lama.

Pensamentos disponíveis apenas em RGB
Walace Cestari é formado em Letras pela Uerj, mas isso não quer dizer nada. É apenas um papel com seu nome, ainda que seja mais interessante do que os papéis de cobrança que lhe chegam igualmente nominais. (+)

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