domingo, 26 de julho de 2015

Cartunfólio: A denuncia do ridículo


Imagem reprodução: Facebook 

"Bem, não posso falar em nome de todos que fazem tirinhas. No meu caso trabalho com tiras de humor e acredito que o humor tenha diferentes funções que vão além do riso. O humor tem uma característica muito própria que é a do exagero. Portanto ele expõe, põe uma lupa em cima de uma questão e a amplia, tornando aquilo que até então não era percebido, em algo evidente. O humor, ou pelo menos o meu tipo de humor, não tem como intenção denegrir, ou ridicularizar nada, nem ninguém. Pelo contrário, eu pego algo que por natureza já é ridículo e a ponho sob uma lupa, para que outros percebam o ridículo até então não notado."

"Acredito, portanto, que independente do humor, o artista de modo geral, tenha esse papel social da denúncia e do questionamento. Através do humor, tenho a possibilidade de expor a nudez de muitas questões e problemas que muitos fazem questões de esconder."

"Tenho tido um bom retorno do público. As pessoas têm gostado bastante das tirinhas, principalmente nas que tocam em questões delicadas como religião, aborto, racismo, homofobia, etc. Estou com meu trabalho no ar há três anos, mas só agora minhas tirinhas estão caindo na graça da galera. É, claro sempre tem os haters, os que curtem a página só pra encher o saco. Ainda existem os que não entendem as piadas, ou os que simplesmente não gostam. Dos que não gostam, preciso citar aqueles que se assustam com sua própria “caricatura” percebendo-se ridículos pela própria natureza, da qual nunca se deram conta."

Cartunfólio

Com 30 anos, e um humor exacerbado que amplia e denuncia o ridículo dos seres humanos... Eis a definição das tirinhas de Zandré, fluminense de Itaboraí e quadrinista de mão cheia, confira a entrevista:


Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder essa entrevista, e gostaria de começar perguntando: Seus quadrinhos/tirinhas são na maioria de assuntos atuais e polêmicos, por quê? Você acha que essa é a missão das tirinhas atuais? Tratar de problemas atuais? O que o povo acha disso?
Cartunfólio:
Bem, não posso falar em nome de todos que fazem tirinhas. No meu caso trabalho com tiras de humor e acredito que o humor tenha diferentes funções que vão além do riso. O humor tem uma característica muito própria que é a do exagero. Portanto ele expõe, põe uma lupa em cima de uma questão e a amplia, tornando aquilo que até então não era percebido, em algo evidente. O humor, ou pelo menos o meu tipo de humor, não tem como intenção denegrir, ou ridicularizar nada, nem ninguém. Pelo contrário, eu pego algo que por natureza já é ridículo e a ponho sob uma lupa, para que outros percebam o ridículo até então não notado.

Acredito, portanto, que independente do humor, o artista de modo geral, tenha esse papel social da denúncia e do questionamento. Através do humor, tenho a possibilidade de expor a nudez de muitas questões e problemas que muitos fazem questões de esconder.

Tenho tido um bom retorno do público. As pessoas têm gostado bastante das tirinhas, principalmente nas que tocam em questões delicadas como religião, aborto, racismo, homofobia, etc. Estou com meu trabalho no ar há três anos, mas só agora minhas tirinhas estão caindo na graça da galera. É, claro sempre tem os haters, os que curtem a página só pra encher o saco. Ainda existem os que não entendem as piadas, ou os que simplesmente não gostam. Dos que não gostam, preciso citar aqueles que se assustam com sua própria “caricatura” percebendo-se ridículos pela própria natureza, da qual nunca se deram conta.

Victor Hugo Cavalcante: Quais suas HQ's e tirinhas preferidas?
Cara, Além das Feijão com arroz Marvel e DC, gosto muito das Web Comics nacionais. Das quais posso listar sites como Willtirando, Peixe Aquático, Ryot Iras, Mentirinhas, Proféticos, Nabunda Nada entre outros...

Victor Hugo Cavalcante: Quais seus quadrinhistas e desenhista de HQ's/tirinhas preferidos? E quais foram suas inspirações para criar os quadrinhos?
Poxa é difícil dizer quais são minhas inspirações... porque são muitas... Gosto muito de caras como Laerte, Angeli, Ziraldo, Maurício de Souza, Reinado, Antônio Eder, André Diniz, Daniel Lafayette... E figuras menos conhecidas do grande público como Leonardo Amaral (Peixe Aquático e 5 alguma coisa no YouTube), Ryot (Ryotiras), Will Leite (Willtirando), Coala (Mentirinhas), Rafael Marçal (Proféticos), Leonardo Maciel (Nabunda Nada) entre outros.

Victor Hugo Cavalcante: O que é mais trabalhoso na hora de fazer uma HQ/tirinha?
Bom, a menos trabalhosa acho que é ter a ideia (o que não é regra)... O problema começa quando tenho que por a ideia no papel, ou melhor, no meu caso, na tela do computador. Acho que todo o processo é trabalhoso. Mas a parte mais chata, talvez seja a de colorir, se bem que ver a página pronta e colorida no final é bem prazeroso.

Victor Hugo Cavalcante: Você já lançou um livro online de tirinhas, intitulada 'As Piores das Melhores Tiras de 2014', você pretende lançar outro livro de HQs?
Pretendo todo ano lançar um compilado digital das tirinhas do ano anterior. Assim os fãs das tiras podem acompanhar de uma vez só tudo que foi produzido durante o ano. Até então fiz apenas do ano passado e disponibilizei em pdf para visualização online e download, tudo gratuito. Mas pretendo ainda, sem data definida, lançar alguma coisa em papel. Ainda não sei se em uma editora ou de forma independente.

Victor Hugo Cavalcante: Qual a maior dificuldade que você encontra da confecção do material (pesquisa de temas, desenhos, textos, etc) até a divulgação das tirinhas?
A maior dificuldade eu enfrento quando tenho que sair da minha zona de conforto. Quando por exemplo preciso fazer uma caricatura de alguém, que por acaso não esteja acostumado a desenhar, em posições diferentes numa mesma história. Ou quando preciso desenhar um objeto ou situação que nunca desenhei na vida. Texto pra mim também é um problema. Gosto de escrever tudo à mão, pois acho que o texto manuscrito fica mais orgânico e expressa minha personalidade... É a extensão do meu traço. Só que como na internet tudo é muito rápido, não é raro tirinhas irem pro ar com alguns erros bobos.

Victor Hugo Cavalcante: Você acha que a arte quadrinista tem uma boa divulgação no Brasil? O que falta melhorar na área?
Hoje tem muita gente boa produzindo quadrinhos de qualidade no Brasil, mas falta incentivo, principalmente do setor público. Pra falar a verdade falta incentivo pra cultura em geral. Vivemos num país onde, infelizmente é mais interessante matar e prender do que incentivar a cultura e a educação. O número de gente produzindo e consumindo quadrinhos nacionais tem crescido nos últimos anos, principalmente na esfera independente, a maioria via internet, como no meu caso.

Eventos como FIQ, Comic Con, Gibicon entre outros são muito importante para a divulgação do quadrinho nacional. Mas ainda são poucos e isolados. Sinto falta de mais eventos como esses em minha região, por exemplo.

Victor Hugo Cavalcante: Você usa algum programa no computador para fazer os quadrinhos? Qual a dica perfeita que você daria para quem deseja mexer nessa área?
Uso o Photoshop e uma mesa gráfica. A dica pra quem quer fazer é ler bastante, não só quadrinhos, mas outras literaturas. Desenhar é o melhor (e único) jeito de se aprender a desenhar bem. Quando mais se desenha, mas se aprende. O Segredo é produzir sempre. Mesmo que o desenho esteja meia boca, a história sem graça, quanto mais se produz, mais se desenvolve a escrita, o traço, as cores, as ideias.

Victor Hugo Cavalcante: O Cartunfólio na maioria das vezes usa o humor crítico para atacar ideias bizarras e perigosas da religião e da chamada "Família de Bem", Por quê?
Bom, algumas pessoas me acusam de ser de esquerda, comunista ou até petista... (credo) outros acham que sou ateu, ou um herege. Na verdade, por incrível que pareça para algumas pessoas, sou cristão de origem evangélica. Nasci e fui criado em um lar evangélico, mais precisamente na Assembleia de Deus de onde fiquei até meus vinte poucos anos, até que conheci minha esposa e mudei para uma denominação mais tradicional, a Igreja Congregacional, onde congrego até hoje. No entanto, hoje não me considero uma cara da religião, mas do Evangelho de Cristo. Não só conheço como sofri na pele as contradições da religião.

Enquanto Cristo diz: ajunte, a religião diz: espalhe. Enquanto Cristo diz: ame, a religião diz: odeie, persiga, maltrate. Enquanto Cristo diz: tenha misericórdia, a religião diz: condene, prenda, mate. Enquanto Cristo diz: perdoe, A religião diz: se vingue, isso é justiça! Enfim... Diante do ridículo da discrepância entre o que Jesus diz e o que a religião diz que Jesus disse me vejo com a ”lupa” na mão.

Imagem reprodução: Cartunfólio

2 comentários:

  1. Zandré é um grande exemplo de profeta, não no sentido empregado no "evangeliquês", mas no sentido original da palavra, aquele que se levanta para alertar o povo sobre suas mazelas e discrepâncias praticadas contra suas próprias convicções. Há muitos profetas hoje, porém, poucos com a genialidade de Zandré.

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